26 de out. de 2011

O significado das roupas.




É uma cena comum em qualquer sábado, no frio ou no calor, com sol ou com chuva: homens de barba longa, vestindo capote preto e com a cabeça coberta por chapéu ou quipá, acompanhados por mulheres de saia comprida e levando os filhos  pelas mãos circulam pelas ruas de bairros como Higienópolis, Jardins e Bom retiro. 

O jovem joalheiro Benjamin, personagem da novela global Caras & Bocas interpretado pelo ator Sidney Sampaio, poderia estar entre eles. Isso porque a trama de Walcyr Carrasco apresenta o cotidiano de um clã paulistano que cumpre ao pé da letra os mandamentos da Torá, o livro sagrado do judaísmo - sendo o principal deles o respeito ao Shabat, período de oraçoes  e descanso que vai do pôr do sol de sexta ao início da noite seguinte. 

"As pessoas nos veem mais pelas ruas nesse dia porque não usamos carros, uma vez que é proibido gerar qualquer tipo de energia", diz o rabino Shie Pasternak, da sinagoga Talmud Thorá Lubavitch, no Bom Retiro. Para Carrasco, cronista de Veja São Paulo, o folhetim retrata a cultura de um povo que ajuda a formar a diversidade da capital. "Costumamos achar que nossos valores são os únicos corretos e verdadeiros", afirma. "Mas os judeus ortodoxos mostram que há outros caminhos para a felicidade." 

Embora formem apenas 15% da comunidade judaica da cidade, estimada em 60 000 pessoas, os ortodoxos representam sua face mais visível, por carregar no rosto e no vestuário as marcas da fé. Para viver o personagem, Sampaio visitou sinagogas e teve aulas de cabala e hebraico. "Aprendi que eles são um povo que dá provas diárias de disciplina e devoção", conta. Mas nem todo ortodoxo usa roupa escura, barba e peiot, os tais cachinhos laterais, como os que aparecem na novela. 

Na verdade, essas características estão relacionadas exclusivamente aos hassídicos, uma vertente do ramo asquenazita, originária da Europa Central e Oriental. Há ainda os sefarditas, vindos da Península Ibérica e do norte da África, e os orientais (da região da antiga Babilônia, atual Iraque), com aparência e rituais diferentes. O que os qualifica como observantes, como são igualmente denominados os ortodoxos, é o fato de se disporem a cumprir tanto as leis da Torá quanto as do Talmude, outro livro sagrado do judaísmo. Entre essas regras, estão as que se referem à relação homem-mulher. A separação de sexos começa na escola e se estende por todos os ambientes sociais - namoros e até mesmo apertos de mão são proibidos. 

Em nome do recato, as ortodoxas têm de usar roupas que escondam o colo, os joelhos e os cotovelos. As casadas cobrem os cabelos com peruca. Durante as rezas na sinagoga, eles se sentam perto do altar, enquanto elas ocupam um recinto à parte, separado por um biombo. "Essas normas servem para protegê-las, pois os homens são criaturas fracas, passíveis de ser distraídas", argumenta o rabino Shabsi Alpern, da sinagoga Beit Chabad Central, nos Jardins.
Judeus ortodoxos não podem nem apertar o botão do elevador durante o Shabat. 

Por isso, nos últimos quinze anos, cerca de vinte edifícios residenciais da cidade, a maioria em Higienópolis, ganharam os chamados elevadores-shabat. "Eles são programados para parar em todos os andares e ficar abertos por alguns segundos para dar tempo de as pessoas entrarem e seguirem até o piso desejado sem ter de mover um dedo", diz José Luís Mundim Soares, responsável por novas instalações da Atlas Schindler. 

Considerados guardiões de sua tradição, os ortodoxos têm trabalhado para renovar a religião na cidade. Segundo a Federação Israelita do Estado de São Paulo, em vinte anos o número de sinagogas paulistanas passou de 25 para 55. Dessas, catorze são do movimento Chabad-Lubavitch, vertente nascida na Europa, no século XVIII, que deu origem ao chassidismo e revitalizou a ortodoxia ao enviar emissários a diversos países com o objetivo de divulgar sua filosofia. 

Com a terceira maior população judaica das Américas - atrás apenas de Nova York, com 1,6 milhão de adeptos, e de Buenos Aires, com 165 000 -, a capital paulista hoje registra a presença de templos e casas de oração em bairros sem raízes hebraicas, como Vila Mariana, Morumbi , Perdizes, Pompeia, Pinheiros, Brooklin e Itaim Bibi. "Os ortodoxos se esforçam para atrair jovens que nasceram na comunidade mas não cumprem os rituais", afirma a antropóloga Marta Topel, professora da Universidade de São Paulo e autora do livro Jerusalém & São Paulo: a Nova Ortodoxia Judaica em Cena. 

"Desde os anos 80, rabinos dos Estados Unidos e de Israel têm vindo para o Brasil trabalhar nesse processo que eles chamam de retorno ao verdadeiro judaísmo".

É o caso do rabino Nathan Ruben Silberstein, de 36 anos. Nascido em Nova York, ele chegou a São Paulo em 1993, acompanhado de sua mulher, Hani, e constituiu uma família numerosa: o casal tem oito filhos, de 2 a 16 anos. As crianças frequentam escolas religiosas em período integral e, em casa, comunicam-se em iídiche e hebraico. Sem acesso à TV nem à internet, recorrem a amigos para acompanhar os jogos do time do coração, o São Paulo. Embora viva em Higienópolis, Silberstein decidiu abrir uma sinagoga em Moema. "Para atrair aqueles que não tiveram educação religiosa efetiva, é preciso sair do nosso reduto e buscar fiéis em outros bairros", explica. "É claro que ninguém precisa ter uma vida regrada como a nossa, mas ir à sinagoga já é um bom começo."

Atividades culturais também fazem parte desse processo de aproximação. O Espaço K, em Higienópolis, reúne mais de 2 000 associados com programas convidativos como palestras em faculdades, rodadas de pizza, baladas e viagens. A maioria deles não é ortodoxa, já terminou os estudos e sentia falta de um lugar para encontrar pessoas que compartilham a mesma crença. Já o Centro Novo Horizonte, no mesmo bairro, que concentra seu foco nas crianças e em suas mães, promove cursos de culinária e música. A maior parte dessas instituições é financiada por empresários judeus filantropos. "Para que a religião tenha continuidade, precisamos ajudar aqueles que propagam nossas tradições", diz Meyer Nigri, proprietário da construtora Tecnisa. 

Ele calcula já ter contribuído para a construção de dez sinagogas e ajuda a custear despesas de rabinos, cujos salários, estimados entre 5 000 e 20 000 reais, seriam insuficientes para alimentar e pagar boas escolas a famílias numerosas. "É nosso dever auxiliar quem dedica a vida a atividades religiosas e educacionais", comenta Ivo Rosset, presidente do Grupo Rosset, que contribui para escolas e ONGs judaicas. A família Safra, por sua vez, banca 100% das atividades de uma sinagoga em Higienópolis e outra na Consolação, além de ajudar na manutenção de algumas instituições. Esther, filha de Joseph e Vicky Safra, por exemplo, é diretora e mantenedora da escola Beit Yaacov, na Barra Funda.

Uma prática comum entre os empresários é patrocinar a instalação de restaurantes kosher (do hebraico, permitido), dieta que, entre suas regras, proíbe o consumo de carne de porco e frutos do mar e a mistura de laticínios com qualquer tipo de carne. Há um ano, um grupo de judeus praticantes procurou o chef Daniel Marciano, dono do restaurante Nur, em Higienópolis, com a proposta de adaptar o menu de seu estabelecimento às regras da religião. 

Eles pagaram a reforma e os utensílios, mais o salário de um supervisor. "O movimento da casa triplicou e eu fiquei tão animado que abri uma rotisseria kosher", comemora Marciano. A crescente demanda por esse tipo de culinária explica o sucesso do McKosher, evento realizado anualmente pelo McDonald's em parceria com a Con-gregação Monte Sinai. Na ocasião, o menu da rede é preparado segundo os preceitos kosher. O último evento, ocorrido em abril, na lanchonete da Avenida Ermano Marchetti, na Lapa, reuniu 4 500 pessoas e nele foram vendidos 7 000 sanduíches - um movimento 200% superior ao de um domingo comum. "Algumas pessoas compram mais de cinquenta sanduíches para congelar e consumir depois", revela Pedro Palatnik, ge-rente de relações institucionais do McDonald's. 

Esse sucesso, aliás, fez com que a rede aceitasse repetir o cardápio em mais quatro domingos de maio na unidade que fica na esquina da Alameda Santos com a Rua Augusta, nos Jardins. "Agora vamos propor à rede que tenha um corner kosher no Shopping Higienópolis", conta Selim Nigri, presidente da Congregação Monte Sinai. Será, com certeza, um bom negócio para todos. 

Nas escolas ortodoxas, pelo menos 50% do conteúdo é lecionado em hebraico, e meninos e meninas frequentam espaços separados. No colégio Iavne, nos Jardins, fundado em 1946 por imigrantes húngaros e poloneses, o uniforme das garotas é composto de saia longa de algodão. Por motivo de praticidade, nas aulas de educação física elas usam calças corsário. 

"Mas isso só porque a quadra é coberta e não existe o risco de alguém de fora da classe nos ver", explica Karen Rosemberg, 14 anos. Corintiana roxa e fã de Ronaldo, na escola ela é artilheira dos times de futebol e handebol femininos. Não vislumbra, porém, uma carreira no esporte. "Seria impossível me destacar, pois não poderia jogar nem treinar aos sábados." 
Morador de Higienópolis, o rabino Nathan Ruben Silberstein (no centro) abriu uma sinagoga em Moema para atrair os judeus do bairro, que não tinham nenhum templo. Ele e a mulher, Hani, nasceram nos Estados Unidos, têm 36 anos e são ortodoxos da linha hassídica. Seus oito filhos - da esquerda para a direita, Jaime, de 12 anos, Re-beca, 10, Jacob, 15, Malka, 4, Joel, 13, Sara, 8, Moisés, 2, e Isaac, 16 - só se comunicam em iídiche e hebraico em casa. 
Os ortodoxos só comem comida kosher, preparada sob a supervisão de rabinos. Para atender à comunidade, uma vez por ano o McDonald's realiza o Dia Kosher, em que seu cardápio segue os preceitos judaicos. Amanda Stulman, 27 anos, reuniu toda sua família - três filhos, mãe, irmão e marido - para ir à terceira edição do evento. "Venho todo ano aqui e peço o mesmo sanduíche: Big Mac", diz ela, que é professora da pré-escola do colégio Gani Talmud Thorá, no Bom Retiro. As crianças, Meyr (à esq.), Chaya e Yossi (à dir.), experimentaram o McLanche Feliz. "Mas o hambúrguer veio sem queijo, porque não misturamos carne e laticínios na mesma refeição", conta Amanda.

Em nome do recato, as ortodoxas têm de usar roupas que cubram os joelhos, os cotovelos e o colo. Prestes a se casar, Tisipi Eskinazi (à dir.), 17 anos, recorreu à estilista Esther Bauman para criar um vestido de noiva de renda e saia plissada com essas características. As futuras cunhadas, Dina Schildkraut e Miralle Mazuz (sentada), ajudaram a aprovar o modelo. "Ninguém precisa abrir mão da vaidade por ser religiosa", comenta Tisipi. 

Depois de casadas, as judias ortodoxas cobrem os cabelos com uma peruca, que só pode ser retirada na intimidade, diante do marido. Casada com um rabino, Yaffie Begun (com sua filha Feiga, de 1 ano, no colo) fabrica modelos com fios naturais, que são vendidos por mil dólares cada um. Mãe também de Nina, 12 anos, e Chaya, 18, ela as ensinou a ter orgulho desse acessório. "Para nós, ortodoxas, é como usar uma coroa: indica que somos realizadas por termos nos tornado esposas e mães". 

Aos 28 anos, o rabino Moishy Libersohn (sentado) dirige o Espaço K, instituição que realiza palestras em faculdades, viagens e atividades culturais para atrair jovens de volta à religião. O local também é conhecido como uma balada judaica e ajudou a formar casais como Irina e Beny Schuchman (à esq.) e Daniel e Patrícia Olszewer (à dir.). "Depois que saem da escola, eles não têm mais onde encontrar seus pares", diz o rabino. "A gente dá uma forcinha.

A rainha Ester



Foto Ilustrativa

Há muitos e muitos anos passados, havia um monarca muito poderoso que reinava desde a Índia até a Etiópia, sobre cento e vinte e sete províncias. Chamava-se Assuero e sua esposa, Vashti, era a mais bela mulher de toda a região. No terceiro ano do seu reinado, Assuero convidou todos os príncipes das outras províncias para lhes mostrar, durante 180 dias, a riqueza e magnificência do seu reino.
Terminado esse período, o rei estendeu o convite a todo o povo de Susan, sede do trono, para grandes festejos, durante uma semana, nos jardins do palácio. Tudo era deslumbrante e pomposo, desde as colunas de mármore e alabastro, às tapeça-rias lindíssimas, até as baixelas brilhantes, os copos de ouro, os fabulosos divãs sobre o pavimento de alabastro e pedras preciosas.

Ao mesmo tempo, a rainha Vashti reunia as esposas de todos os hóspedes do rei também para grandes festas no palácio.

No sétimo dia, como apoteose das celebrações, o rei achou que devia exibir o que possuía de mais precioso: a sua rainha. Mandou chamá-la, para ressaltar sua beleza. Ao receber o chamado, porém, Vashti firmemente respondeu: "Ah! Não, não vou. Primeiro que tudo, não sou amostra de papel, segundo estou me divertindo com as minhas amigas! Tinha graça deixá-las para me sentar como uma boneca no trono, ao lado do rei... Digam-lhe que agradeço o convite, mas não posso aceitar".

Quando os eunucos voltaram sós e, muito embaraçados, transmitiram a recusa da rainha, Assuero sentiu-se desrespeitado e humilhado ante o povo. Ao saírem os convidados, consultou os seus ministros: "Que atitude devo tomar com a rebelde Vashti?" A resposta foi unânime e imediata: "Despojá-la da coroa e coroar outra esposa. A atitude dela é imperdoável. Seguindo o seu exemplo, as outras mulheres desobedecerão os maridos e é uma vergonha para nós, porque cada homem deve ser o senhor na sua casa".

Foi difícil para Assuero tomar tal decisão. Amava muito a sua Vashti e passou bastante tempo apaixonado, chorando a sua ausência. Porém, seus ministros insistiam: urgia eleger-se outra rainha. Outra mulher tão bela como Vashti faria com que ele a esquecesse. Foram então postos editais em todas as províncias, convocando as moças do reino para que o rei escolhesse a substituta de Vashti.

Ora, havia um homem chamado Morde-chai, oriundo de Jerusalém, residente em Susan. Esse homem criara como sua a filha de um tio, órfã de pai e mãe. Chamava-se Esther. Era lindíssima. Ao saber do edital, Mordechai, achando que moça alguma poderia ser mais bela do que Esther, resolveu escondê-la. Comunicando-lhe sua decisão, recomendou: "Se fores escolhida não digas que és do povo judeu". Esther prometeu obedecer. Porque lhe obedecia em tudo. No íntimo, porém, desejava ser rejeitada porque não trocaria por trono algum a liberdade de escolher quem seu coração elegesse. Sua esperança era que o rei preferisse outra moça entre tantas e tantas que lhe eram apresentadas, cada uma por sua vez, no decorrer de anos, provavelmente. Mas o tempo passava, dias, meses, sem que Assuero coroasse nova rainha. A saudade de Vashti apagava a beleza das candidatas. Nenhuma lhe agradava.

Até que chegou Esther. E foi amor à primeira vista. "Como és linda!", repetia ele, fascinado. Esther sorria e seu sorriso iluminava o rosto moreno. Sete anos haviam passado desde a deposição de Vashti. Enfim, outra rainha, chamada Esther, ocupou o trono.

Entretanto Mordechai passava os dias andando ao redor do palácio para ter notícias da sua filha adotiva, já então rainha. Foi assim, nessas rondas, que ouviu dois eunucos confabulando sobre uma conspiração contra o rei. Imediatamente mandou comunicar a Esther. Ela tomou as providências devidas e foram punidos aqueles que tramavam derrubar Assuero. Essa atitude de Mordechai foi anotada nas "Crônicas Diá-rias" do reino.

Por esse tempo, a pessoa mais importante no reino, depois do rei, era Haman, que gozava de poderes especiais, recebendo honrarias, entre elas, por lei, que todo indivíduo se curvasse e se prostrasse à sua passagem. A lei era rigorosamente cumprida. Todos curvavam-se, prostravam-se, com exceção de uma pessoa: Mordechai, que não dava a menor importância a Haman. Ao notar o desdém de Mordechai, Haman encheu-se de ódio, não somente contra ele, mas contra todos os judeus. Denunciou os judeus a Assuero, acusando-os de terem costumes próprios e não obedecerem as leis do rei e aconselhando-o a exterminá-los. Conseguiu que Assuero ordenasse, em todas as províncias do reino, que todos os judeus adultos e crianças fossem executados em um só dia.

Ao ouvir a notícia da tragédia que ele próprio provocara, Mordechai correu para Esther, mandando que ela fosse suplicar ao rei piedade para o seu povo. Era uma ordem difícil de ser cumprida, porque ninguém tinha o direito de entrar no pátio que precedia o salão do rei sem ser por ele convocado, e quem o ousasse seria morto. Mas Mordechai insistiu: "Tens que ir, não penses que escaparás à chacina que ameaça todos os judeus".

E Esther criou coragem. Primeiro convocou seu povo, com a ajuda de Mordechai, pedindo a todos os judeus que jejuassem para ajudá-la em sua difícil missão. A seguir, vestiu-se com os paramentos reais e postou-se no pátio em frente ao salão real. Vendo-a, Assuero sorriu, acenando o cetro como sinal de que a receberia. Chamou-a para que se aproximasse. Perguntou-lhe, ternamente: "O que tens, rainha Esther, qual é a tua petição? Até metade do reino te será dado". Então Esther respondeu que apenas vinha convidá-lo para um jantar em que Haman também comparecesse. O rei aceitou, rindo-se de tão simples petição.

Quando recebeu o convite, Haman rejubilou-se. Achava-se tão importante que até a rainha o distinguia, convidando-o junto com o rei. "Mas", disse à sua esposa e aos filhos, "tudo isto não me satisfaz enquanto vir Mordechai sentado à porta do palácio". "Então mande enforcá-lo", falaram todos. Era justamente o que aconteceria em breve, esperava Haman; não só Mordechai; mas todo o seu povo deixariam de existir.

Aconteceu que, nessa mesma noite, o rei, insone, pediu que lhe lessem as "Crônicas Diárias" onde era assentado tudo o que acontecia no palácio. Ao ouvir o caso da conspiração tramada contra ele e de como Mordechai o salvara, quis saber que recompensa tinham dado a esse homem. "Nenhuma", responderam. Nesse momento chegou Haman e o rei consultou-o: "Que se fará ao homem a quem o rei está agradecido?" Pensando que esse homem só poderia ser ele, Haman propôs: "Que esse homem vista o traje real, use a coroa, monte o cavalo do rei e seja levado pelas ruas, apregoando-se: "Assim se faz ao homem a quem o rei está grato".

"Então", disse Assuero, "apressa-te, veste Mordechai e leva-o pelas ruas, como disseste". E Haman teve que cumprir as ordens do rei. Mas terminado o passeio pela cidade, voltou para casa furioso e contou à família o que lhe havia acontecido. "Como devo vingar-me?" perguntou à esposa, e ela falou assim: "Se Mordechai, perante quem já começaste a cair, é da semente dos judeus, não vencerás, mas certamente cairás perante ele".

No dia seguinte, quando se realizava o banquete de Esther, com a presença do rei e de Haman, Assuero perguntou novamente: "Qual é a tua petição, rainha Esther? E qual o teu requerimento? Até metade do reino te será dado".

Esther ergueu-se para dar mais ênfase às suas palavras: "Dê-me minha vida como petição e a do meu povo como requerimento. Porque estamos vendidos, eu e meu povo, para sermos destruídos".

O rei também levantou-se indignado: "E onde está aquele cujo coração o instigou a assim fazer?" E disse Esther, apontando para Haman: "O homem, o inimigo, o opressor é este".

Surpreendido e abalado por essa revelação contra o homem que ele mais prezava, Assuero retirou-se para o jardim. Então Haman atirou-se aos pés de Esther, pedindo misericórdia. Ao reentrar, Assuero, deparando com Haman ajoelhado diante de Esther, gritou-lhe colérico: "Porventura também queres forçar a rainha na minha própria casa? Guardas! Prendam este homem!"

Nesse mesmo dia, a pedido de Esther, o rei revogou a lei que decretava o extermínio de todos os judeus. E mandou chamar Mordechai; deu-lhe o anel que havia retirado de Haman, empossando-o na posição que o inimigo ocupara. Mordechai saiu do palácio usando o manto azul e branco, levando, na cabeça erguida, a coroa de ouro.

Seu primeiro ato como ministro foi decretar que os judeus preservassem como feriado, para sempre, os dias 14 e 15 do mês de Adar, dias esses em que a tristeza se transformou em alegria. Que os celebrassem com banquetes, troca de presentes entre a família e amigos, e dádivas aos pobres. E como nesses dias foi decidida a sorte dos judeus, os mesmos fossem chamados Purim, plural de pur, sorte, em hebraico.

Milênios são passados e milênios virão em que se celebra Purim como mandou Mordechai, com festas, trocas de presentes e donativos aos necessitados. E, ainda, a escolha da Rainha Esther entre as moças mais belas da comunidade.

Sultana Levy Rosenblatt
Mc Lean, Virgínia.
 

Os milagres do profeta Elisha




Foto Ilustrativa

Discípulo e sucessor de Eliahu Hanavi, Elisha serviu seu povo por 60 anos, tendo realizado mais milagres do que qualquer outro profeta e o dobro dos realizados por seu grande mestre.Ele teria realizado dezesseis; Eliahu, apenas oito. Diz o Zohar que "Elisha teve méritos, neste mundo, não igualados por nenhum outro profeta - exceto Moisés".Na verdade, a narrativa da história de sua vida, no Livro dos Reis, é basicamente o registro de uma série de eventos e atos sobrenaturais. Elisha viveu no Reino de Israel, no século VII antes da Era Comum, época turbulenta em que a Terra de Israel estava dividida entre os reinos de Israel, ao norte, e Judá, ao sul. Além disso, apesar dos esforços do profeta Eliahu, os Filhos de Israel ainda não haviam abandonado as práticas idólatras introduzidas por Jezebel, esposa do rei Achav.
Com a subida de seu mestre aos Céus, cabe a Elisha dar continuidade à missão de fazer Israel entender que D'us é Um e Único e que somente Ele é o Juiz Supremo. Através de demonstrações de Seu poder, de Sua justiça e de Sua misericórdia, D'us queria forçar até os mais céticos entre Seus filhos a abandonar as práticas idólatras e reconhecer que Ele era D'us Todo Poderoso, tanto nos Céus quanto na Terra. Para cumprir sua missão, Elisha começa a viajar pela Terra de Israel, acompanhado de alunos e discípulos, voltando a todos os lugares onde estivera com Eliahu. Por onde passa, opera milagres, provando assim que sucedia o mestre. Todas as narrativas que o envolvem servem para reafirmar que a Força e Poder Divino regem tudo o que existe na natureza.
Apesar de sua intensa atuação pessoal e política junto a Israel, Elisha, diferentemente de Eliahu, efetua a maioria de seus milagres sobre pessoas comuns: famintos, pobres, uma viúva com problemas financeiros, uma mulher sem filhos, um doente, um jovem que falecera. O Livro dos Reis revela a grandeza de Elisha, descrevendo sua imensa compaixão.

O manto da profecia

Elisha, filho de Shafat, rico proprietário de terras em Abelmecholá, escolhido por D'us para suceder Eliahu, arava o campo quando o mestre o viu pela primeira vez. De imediato, o profeta joga sobre os ombros do jovem o próprio manto e, com aquele sinal, tornava o agricultor seu discípulo. Este imediatamente abandona tudo, seus familiares, suas posses, para dedicar-se a D'us e acompanhar Eliahu, seu novo mentor, quase um pai.
Os dois se tornam inseparáveis por quase dez anos e, quando chega o momento em que o mestre deve deixar este mundo, seu fiel discípulo o acompanha. Não aceita, de forma alguma, deixá-lo partir só. Ambos são seguidos à distância por 50 profetas, também discípulos de Eliahu. D'us queria que este lhes concedesse sua aura de profecia antes de partir.
A despedida entre mestre e discípulo predileto ocorreu nas proximidades do rio Jordão, perto de Jericó. Ao alcançarem as margens do rio, percebem que as águas haviam subido, de um momento a outro. Como o atravessariam? Os discípulos observavam atentamente o mestre. Este, com um gesto de seu manto, abre as águas do rio e o atravessa, com Elisha.
Ciente de que o discípulo querido sofreria muito com sua partida, para consolá-lo e retribuir-lhe a lealdade, Eliahu pergunta o que pode fazer por ele antes da inevitável separação. E Elisha diz: "Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito sobre mim". Pedia uma porção dupla do Espírito Divino, ou seja, o dobro do espírito e força moral do mestre. Segundo os sábios, Elisha pedia que D'us lhe concedesse o mérito de realizar o dobro dos milagres que Eliahu obrara enquanto vivo.
E foi o que aconteceu. Enquanto os dois seguiram, conversando sobre a Torá, "eis que uma carruagem de fogo, com cavalos de fogo aparta-os, um do outro" Ao ver seu mestre subir aos Céus, em um redemoinho de fogo, Elisha exclama: "Meu pai, meu pai, carruagens de Israel e seus cavaleiros" (Reis II, 2-11 e 12). Referia-se às preces de Eliahu HaNavi, um dos dez homens que entraram vivos no Gan Éden e que tinham o poder de proteger os Filhos de Israel mais do que as carruagens e seus cavaleiros (Targum Yonatan).
"Pedes-me algo difícil", responde, "pois como te daria mais do que tenho?" "Mas", acrescenta, "se me vires quando for tomado de ti, então poderás ter uma porção dupla do meu espírito" (Reis II, 2-10). Nossos sábios explicam que na hora em que estivesse para deixar a vida terrena, Eliahu estaria em um nível espiritual duas vezes mais elevado do que quando era simples mortal, podendo assim atender o pedido de Elisha. E, se este presenciasse sua partida, significaria ter atingido um nível espiritual adequado para merecer "a dupla porção" do espírito do grande Eliahu HaNavi.
Ao subir aos Céus, Eliahu deixa cair seu manto, sinal do poder que lhe conferira O Eterno. O discípulo recolhe, recebendo assim, o poder profético do Mestre. Elisha se dirige às margens do Jordão, onde pede a D'us que sua oração seja aceita. Pede que também por seu intermédio D'us opere milagres e que, conforme lhe fora prometido, repouse nele o "dobro do espírito" de Eliahu. Em seguida, toma o manto deste e bate o mesmo sobre as águas. E estas se dividem de um lado e de outro, permitindo-lhe atravessar o rio.
Este é o primeiro sinal da "porção dobrada". A primeira vez em que as águas se dividiram fora pelo mérito de dois homens devotos; desta vez, unicamente pelo mérito de Elisha.
Os profetas que os haviam seguido, à distância, e aguardavam, não viram a subida de Eliahu aos Céus. Mas, ao ver as águas recuarem, dividindo-se, disseram: "O espírito de Eliahu repousa sobre Elisha!" (Reis II, 14-15). Reconheciam, pois, nele, o sucessor do mestre, o profeta supremo daquela geração; e se submetem à sua autoridade.

Purificação da água

Logo após ser Elisha reconhecido como sucessor de Eliahu, os habitantes de Jericó acorrem a ele para se queixar que as águas da cidade eram "ruins". Como não eram potáveis, eles eram obrigados a trazer água de longe. Declarando agir por ordem Divina, Elisha joga sal n'água, limpando-a das impurezas e a tornando límpida e pura. Ensinam nossos sábios que aquele era "um milagre dentro de um milagre - ness betoch ness, pois, de modo geral, o sal torna a água menos potável" (Rashi). E embora o sal "estrague" a água, tinha sido usado por D'us como instrumento. Assim, a fama de Elisha começa a se espalhar. Ao deixar a cidade, o profeta é insultado por um grupo de jovens que lhe gritam zombarias e ofensas: "Vai embora, calvo! Vai-te daqui!". Zombavam de Elisha por ser diferente de Eliahu, que era ba'al Seiar - possuía vasta cabeleira e pelos no corpo. Queriam dizer, com isso, que ambos não estavam no mesmo nível e que, portanto, o discípulo não seria capaz de tomar o lugar do mestre (Metzudat David, Malbim).
Elisha percebe que zombavam não apenas dele, mas de seu grande mestre, também. Percebendo a maldade de sua intenção, olhou-os, irado, pois sabia que a humilhação sofrida por um profeta podia afetar negativamente o comportamento do povo e os amaldiçoou, em Nome do Eterno. Subitamente, duas ursas saem da floresta e se atiram sobre os rapazes. Mas atacam apenas aqueles que, mesmo vendo que Elisha se zangara, continuaram a escarnecer dele.

A viúva de Ovadia

Outra passagem no livro dos Reis registra mais um de seus milagres. Um dia, a viúva do profeta Ovadia o procura, suplicando que a ajude, pois estava sendo pressionada por seus credores. Na época de Eliahu, Jezebel, esposa de Achav, soberano do Reino de Israel, perseguia os profetas. Arriscando sua própria vida, Ovadia escondera cem deles em cavernas. Sua viúva conta a Elisha que, como o marido usara tudo o que possuía nessa mitzvá, ela estava endividada e seus filhos poderiam ser levados como escravos.
O profeta pergunta à mulher o que ainda lhe restava, ao que ela responde: "Apenas um pouco de azeite". Ele a instrui para pedir emprestado a todos os conhecidos, vizinhos e amigos o maior número possível de vasilhames. Com um único ato milagroso, ela poderia pagar as dívidas e garantir seu sustento no futuro. Ao reunir 395 de tais utensílios em um quarto, o azeite começa a jorrar milagrosamente da botija original que D'us transformara numa fonte e a viúva põe-se a encher os recipientes. Quando as ânforas vazias acabam, Elisha diz: "Vai, vende este azeite e paga tua dívida e, com o restante, vivereis, tu e teus filhos!" (Reis II, 4 e 7).

A mulher shunamita

Vivia em Shunam uma mulher, bondosa e rica, que recebia muitos hóspedes em sua casa. Era casada e não tinha filhos. Toda vez que Elisha passava pela cidade, em suas andanças, ela o retinha para lá comer pão. Percebendo que se tratava de um "santo homem de D'us", destinara-lhe um lugar especial em sua casa. Em uma de suas viagens, querendo expressar-lhe gratidão, Elisha pergunta o que poderia fazer por ela. Humildemente, a mulher responde que nada lhe faltava. Guechazi, ajudante de Elisha, intervém e conta que ela não tem filhos, ao que Elisha profetiza: "A este tempo, no ano vindouro, abraçarás um filho em teus braços". A mulher percebe algo diferente nas palavras do profeta, pois ele não dissera "terás" um filho nem falara "em nome de D'us". Pede, então, que se fosse digna de recompensa, que esta viesse por inteiro e não pela metade.
Como profetizado por Elisha, ela engravida e tem um filho. O filho cresceu sadio até que um dia, enquanto trabalhava com o pai, o jovem sentiu-se mal. Ao ser levado para casa, falece nos braços da mãe. A mulher coloca o filho no quarto de Elisha, na cama do profeta, e o cobre, sem avisar a ninguém, nem mesmo ao marido, sobre a morte do rapaz. Imediatamente saiu em busca do profeta e, ao encontrá-lo, jogou-se a seus pés. Revelando o acontecido, diz: "Pedi ao senhor um filho? Não, não me iludas" (Reis II, 4-28). Perder algo tão precioso era bem pior do que nunca tê-lo tido.
Elisha entrega seu cajado a Guechazi, o ajudante, e pede-lhe que vá à frente, para ressuscitar o menino. Mas a mulher insiste que o profeta vá, ele mesmo, trazer seu filho de volta à vida. Elisha chega à casa e fecha-se no quarto. Põe-se a orar, suplicando ao Eterno que reavive o menino. Foi este o único milagre de Elisha para o qual foi preciso rezar, porque só D'us pode re-insuflar vida nos mortos. Deita seu corpo sobre o do menino e põe sua boca sobre a dele, repetindo sete vezes esta ação. E o menino abriu os olhos - estava novamente vivo. Ele se tornou o profeta Habakuk (que quer dizer "abraçar").

O general sírio

O décimo milagre de Elisha envolve o general Naaman, chefe do exército do rei Aram. Era homem valente e honrado, mas sofria de lepra. Uma das ajudantes da casa era judia e o aconselha a ir ver o profeta Elisha, em Shomron (Samaria), Israel, "pois ele o curaria de sua enfermidade". E assim o general dirige-se à presença do profeta, acompanhado por uma grande comitiva, com presentes e riquezas, para o impressionar.
Ao chegarem, Elisha não sai para recebê-los, como esperava o general. Dispõe-se, contudo, a ajudá-lo para santificar o Nome de D'us.
Um mensageiro transmite ao general as palavras do profeta: "Vai e mergulha sete vezes no rio Jordão e tua carne será restaurada e ficarás puro" (Reis II, 5-10). Apesar de ficar indignado com o comportamento do profeta, Naaman faz o que lhe fora ordenado, mergulhando sete vezes no rio Jordão. Imediatamente ficou curado.
Volta até o profeta e, humilde, reconhece a grandeza do milagre de que fora merecedor. Naaman pede permissão para levar consigo um pouco da terra sagrada de Israel para construir, em sua cidade, um altar para o Todo-Poderoso, D'us de Israel, Aquele que era Único e a Quem, unicamente, ele agora reverenciava.
Apesar da insistência, Elisha não aceita nenhuma recompensa de Naaman, pois sendo um homem justo não queria pagamento por uma cura obtida por via milagrosa (Reis II, 12:16). Um de nossos sábios, Ralbag, explica que um profeta só pode aceitar recompensa por um milagre se este resultar de uma ação própria e não de intervenção Divina.
Mas Naaman, na sua volta, encontra Guechazi, ajudante de Elisha. De olho nas riquezas do general sírio, o ajudante inventa que o profeta mandara pedir ouro e dinheiro para ajudar alguns alunos. Naaman lhe entrega o dinheiro que ele, então, esconde. Ao encontrar Guechazi, Elisha o enfrenta e diz que enquanto o objetivo do milagre era santificar o Nome do Eterno, ele fizera exatamente o oposto. Amaldiçoa-o, então, com a lepra de Naaman, caindo essa terrível doença sobre ele e seus filhos, que o tinham apoiado no plano maldoso. Segundo nossos sábios, Elisha foi demasiado rigoroso com Guechazi.

A emboscada de Elisha

Outro episódio confirma a força do profeta. O rei da Síria, que estava em guerra contra Israel, queria levar Elisha a seu país, para que este não mais ajudasse o rei de Israel. Para isso, envia tropas, cavalos e carruagens até Dotan, onde se encontrava o profeta. Ao perceber o que estava acontecendo, este diz para os que o acompanhavam: "Não temai porque mais são os que estão conosco do que os estão com eles" (Reis II, 6-16). E pede ajuda a D'us. Pede ao Todo-Poderoso que "cegue os soldados" para que percam a orientação do lugar em que estavam. Como haviam chegado na escuridão, poderiam confundir-se com o caminho.
"E D'us os feriu com cegueira, conforme a palavra de Elisha" (Reis II, 6-18). Nesse instante, o profeta lhes diz: "Não é este o caminho nem é esta a cidade. Segui-me e vos guiarei ao homem que procurais". E os guiou até Shomron. "Assim, conduz o exército sírio de Dotan para Shomron, onde seus homens são cercados e aprisionados".
Ao ver o milagre ocorrido, o rei de Israel aceita a autoridade de Elisha, passando a seguir-lhe os conselhos.
Sob as ordens de Elisha, liberta os soldados presos. Afirmam nossos sábios que a emboscada que Elisha armara foi mais eficaz de que todas as guerras de Yehoram, filho de Achav, rei de Israel, pois por um bom tempo não mais entraram tropas de Aram na Terra de Israel para assaltar e saquear.

Milagre da farinha

Após este incidente, o rei de Aram vendo que já não podia vencer Israel com táticas de guerrilha, cercou a cidade de Shomron. Era um período de extrema fome na região. Desesperado com a situação do povo, o rei de Israel vai ao encontro de Elisha. Vendo-o aflito pela sorte de seu povo, o profeta o recebe e lhe diz que sempre há esperanças e não se deve desesperar. "Ouvi a palavra do Eterno", diz Elisha. "Amanhã, aproximadamente a esta hora, o preço da farinha em Shomron será drasticamente reduzido" (Reis II, 7-1). Um dos generais não acredita no profeta e interrompe o diálogo deste com o rei, com zombarias, e Elisha lhe diz: "Tu verás, mas não aproveitarás".
Ao lado dos portões da cidade, estão sentados quatro leprosos: Guechazi e seus três filhos, que tinham sido impedidos de permanecer em seu interior. Com fome, resolvem entrar no acampamento dos sírios. Ficaram muito surpreendidos por encontrá-lo vazio. No início da noite, D'us havia feito com que os sírios ouvissem um barulho inexistente. Imaginando que o rei de Israel contratara tropas hititas e egípcias para lutar contra eles, tinham fugido em pânico, deixando tudo para trás, até mesmo os animais. Ao se deparar com roupas, comida e abundantes provisões, os quatro decidem avisar os demais. Então, todo o povo entra no acampamento sírio, saciando sua fome. E assim como profetizara Elisha, o preço da farinha caiu. Aquele que havia zombado do profeta, não conseguiu aproveitar. Viu cair o preço do trigo, como aquele lhe dissera, mas morreu pisoteado pelos outros enquanto guardava o portão.

A morte de Elisha

Em seu leito de morte, o profeta realiza mais um milagre para ajudar os Filhos de Israel. Seu rei, Yoash, procura-o e roga por sua intervenção contra o rei Aram, inimigo dos judeus. Elisha ordena-lhe que abra a janela em direção ao Leste e coloca suas próprias mãos sobre as do rei Yoash, e juntos atiram uma flecha em direção a Aram. Em seguida, pede ao rei que atire mais flechas no chão. Este atira, então, somente três flechas. Furioso, Elisha o repreende: "Tivesses atirado seis ou sete, terias vencido Aram de uma vez por todas. Da maneira como agiste, apenas o derrotarás em algumas batalhas, mas jamais eliminarás totalmente sua ameaça". E assim foi.
Nachmanides explica que para se atingir totalmente os objetivos, as forças espirituais precisam ser trazidas ao mundo físico e expressas em termos tangíveis. Até que se faça isso, as tarefas estarão inacabadas.
Elisha morreu no décimo ano do reino de Yoash. Grandes multidões sepultaram o profeta que servira Israel como líder espiritual por mais de 60 anos.
Após sua morte, Israel foi castigado por tropas moabitas das quais, quarenta anos antes, Elisha salvara o povo.